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Alvorecer (74) + Canto das três raças (76) (2 em 1)

Clara Nunes
Discos: Samba

Disponible

19,36 € impuestos inc.

Ficha técnica Discos

Sello EMI
Estilo Samba
Año de Edición Original 2003

Más

Edición especial que incluye 2 LPs originales en 1 solo CD.

Participación especial de: Clementina de Jesus.

Clara Nunes fue una de las revitalizadoras del samba en los años 70, la primera en vender medio millón de copias de un solo disco y una de las más populares cantantes brasileñas de siempre.

"É impressionante como Clara Nunes (12 de agosto de 1942 – 2 de abril de 1983) permanece viva na memória musical do Brasil! Morta há 41 anos, a cantora mineira ainda motiva a criação de sucessivos espetáculos de música e teatro em saudação a essa artista que pôs os pés na profissão na década de 1960, mas que se fez ouvir para valer somente a partir de 1971.
A trajetória luminosa de Clara foi consolidada em 1974 com o lançamento do sétimo álbum da cantora, Alvorecer, disco que completa 50 anos em 2024 como um dos títulos mais brilhantes da discografia brasileira.
Posto no mercado pela Odeon, gravadora na qual a cantora construiu discografia que foi de 1966 a 1982, Alvorecer foi o álbum que projetou definitivamente Clara Nunes no universo do samba, que fez o Brasil despertar para a beleza daquela voz de sabiá.
A conversão da cantora ao samba acontecera há três anos com o álbum Clara Nunes (1971), disco arquitetado pelo produtor musical e radialista Adelzon Alves. Adelzon remodelou a imagem e o repertório da cantora, que vinha tentando fazer sucesso desde a segunda metade da década de 1960.
Induzida por diretores da Odeon, Clara foi apresentada inicialmente como cantora de boleros. O fracasso da estratégia levou a cantora a flertar com a Jovem Guarda e com o pseudogênero rotulado como “música de festival”. Nada deu certo.
Clara se encontrou e encontrou um público somente quando teve o caminho profissional cruzado com o de Adelzon Alves. Além de ter criado a imagem de baiana estilizada com que Clara aparece na capa do álbum Alvorecer, em foto de palco que faz supor erroneamente que se trata de disco ao vivo, o radialista introduziu a cantora no universo das escolas de samba do Rio de Janeiro, sobretudo na Portela.
Nos domínios da agremiação carioca, à qual a cantora ficaria definitivamente associada, Clara ganhou a afeição de bambas portelenses como Candeia (1935 – 1978). Não por acaso, Candeia deu a Clara a primazia de lançar o samba Sindorerê no álbum Alvorecer.
Sindorerê é tema que versa sobre entidades de religiões de matriz afro-brasileira. Esse universo nortearia parte do repertório de Clara Nunes e também é evocado no álbum através do canto enérgico de Nanãe, Nanã Naiana (Sidney da Conceição), eco do Brasil colonial e escravocrata.
Contudo, é redutor creditar o sucesso da artista a esse universo mítico do Candomblé e da Umbanda. Basta ouvir as onze faixas do álbum Alvorecer para comprovar que Clara Nunes era cantora de horizonte musical que foi se ampliando a partir do definidor disco de 1971.
Embora o todo-poderoso da Odeon na época, Milton Miranda, tenha levado o crédito de produtor de Alvorecer, a beleza perene do álbum é fruto da união do canto esplendoroso de Clara Nunes, da produção de Adelzon Alves (creditado como coprodutor...) e da direção do maestro Lindolpho Gaya (1921 – 1987), que confiou as orquestrações e regências a João Donato (1934 – 2023), Helio Delmiro, Carlos Monteiro de Souza e Orlando Silveira. Todos os arranjos são irretocáveis.
E o que dizer do primoroso repertório? O álbum já merece lugar nobre na discografia brasileira somente pelos dois sublimes sambas que propagaram a esperança na voz de Clara.
Menino Deus abria o lado A da edição original de Alvorecer em LP. O samba é uma das pérolas mais reluzentes da parceria de Mauro Duarte (1930 – 1989) com o compositor e poeta Paulo César Pinheiro, autor da letra embebida em lirismo. Mauro e Pinheiro se tornariam nomes fundamentais na discografia de Clara a partir do álbum Canto de três raças (1976), o primeiro produzido por Pinheiro para a cantora com quem se casaria em 1975.
O outro samba de esperança era a música-título. Alvorecer abria o lado B do LP, apresentando a primeira obra-prima da então recente parceria formada em 1972 por Dona Ivone Lara (1922 – 2018) com Delcio Carvalho (1939 – 2013). O canto de Clara em Alvorecer é preciso, realçando o sentido exato de cada verso do samba.
Entre uma samba e outro, Clara Nunes também apresentou no álbum Alvorecer o belo e melancólico Samba da volta – música inédita de Toquinho e Vinicius de Moraes (1913 – 1980), com quem a cantora havia se juntado em show que correu o Brasil em 1973 – e Meu sapato já furou, animado samba de quadra do já mencionado Mauro Duarte em parceria com Elton Medeiros (1930 – 2019).
Em Alvorecer, Clara também cravou Punhal em forma de denso samba-canção, composição do então desconhecido Guinga com letra de Paulo César Pinheiro. Clara e o grupo MPB4 foram os primeiros nomes a dar vozes a Guinga, compositor que somente conquistaria prestígio a partir dos anos 1990 por conta da parceria com Aldir Blanc (1946 – 2020).
O lado A também trazia abordagem do samba O que é que a baiana tem? (1939), marco inicial do genial cancioneiro do compositor baiano Dorival Caymmi (1914 – 2008).
Aliás, foi em mergulho nas águas da Bahia que Clara gravou em Alvorecer o samba que a alçaria para sempre ao primeiro time das cantoras do Brasil. Parceria do pernambucano Romildo Bastos (1941 – 1990) com o paraense Toninho Nascimento, Conto de areia galgou as paradas do Brasil, chegando rapidamente ao topo e se tornando um dos maiores sucessos dos 17 anos de carreira fonográfica de Clara Nunes.
Ainda em território nordestino, mas já no universo do sertão, a cantora pegou Pau-de-arara (Luiz Gonzaga e Guio de Moraes, 1952) e mostrou que ia (bem) além do samba.
E é entre o tom de uma cantadora nordestina e o de uma sambista que a cantora gravou Esse meu cantar, música inédita do então também ascendente João Nogueira (1941 – 2000), compositor carioca que ainda legaria grandes sucessos à artista.
Enfim, Alvorecer é álbum brilhante que fez o Brasil despertar de vez para a luz de Clara Nunes. E o brilho do disco se conservou intacto ao longo desses 50 anos." Mauro Ferreira (g1.globocom, 07.10.2024)

"Analisado em perspectiva na discografia de Clara Nunes, 50 anos após o lançamento, o álbum “Canto das três raças” se impõe como divisor de águas na trajetória fonográfica da cantora mineira. Àquela altura, em 1976, a mineira Clara Francisca Gonçalves (12 de agosto de 1942 – 2 de abril de 1983) já estava convertida ao samba há cinco anos e já havia se imposto como um dos maiores nomes do gênero e uma das maiores cantoras da música brasileira pela voz luminosa, de emissão clara.
Contudo, o álbum gravado entre julho e agosto de 1976 – e editado em LP de capa dupla pela gravadora EMI-Odeon com luxuosa arte gráfica – expandiu o canto de Clara. A artista queria ser percebida como uma cantora de música brasileira, sem o rótulo de sambista, ainda que sempre tivesse o samba como norte e base do repertório.
Para que Clara atingisse o objetivo, foi fundamental a união da artista com o compositor e produtor musical Paulo César Pinheiro. “Canto das três raças” é o álbum que marca o início da parceria da cantora com Pinheiro, com quem Clara se casou em julho de 1975 após iniciar relacionamento em 1974.
Descontada a fase irregular e inexpressiva da década de 1960, a discografia de Clara Nunes pode ser dividida entre os álbuns produzidos por Adelzon Alves e os discos feitos com Paulo César Pinheiro.
Arquiteto da imagem de sambista adotada por Clara a partir de 1971, com direito a um figurino estilizado de baiana, Adelzon deu forma aos álbuns lançados pela cantora em 1971, 1972, 1973 e 1974. Foram quatro discos de consolidação da imagem e da voz da cantora no universo do samba.
Desfeita a conexão com Adelzon, Clara Nunes lançou álbum de transição em 1975, “Claridade”, arranjado e produzido pelo violonista Hélio Delmiro (1947 – 2025) – nome indicado pelo próprio Paulo César Pinheiro e creditado como produtor executivo na ficha técnica original do LP – em parceria com Renato Correa, este creditado como diretor de produção.
Foi somente em “Canto das três raças” que Pinheiro assumiu a direção artística da discografia da cantora em vínculo que durou até a morte precoce de Clara, aos 40 anos, em abril de 1983, vítima de complicações decorrentes de operação de varizes.
Neste álbum, o décimo da artista, Clara Nunes gravou dez músicas formatadas em estúdio sob direção musical de Lindolpho Gaya (1921 – 1987), maestro também responsável pelos arranjos e regências do disco, função que dividiu com Orlando Silveira (1925 – 1993), Francis Hime – que orquestrou a regravação de “Basta um dia” (Chico Buarque), música da trilha sonora da peça “Gota d'água” (1975) – e Nelson Martins dos Santos (1927 – 1996), o maestro conhecido no meio artístico como Nelsinho.
Como em todos os discos lançados por Clara Nunes a partir de 1971, o repertório do álbum “Canto das três raças” é irretocável. A começar pelo memorável samba que deu nome ao disco, uma das músicas mais conhecidas e revisitadas do repertório de Clara. Trata-se do segundo grande sucesso da parceria de Paulo César Pinheiro com o compositor Mauro Duarte (1930 – 1989), projetada dois anos antes com a gravação, pela mesma Clara Nunes, do lírico samba “Menino Deus”, um dos sucessos do álbum “Alvorecer” (1974).
Além de assinar com Pinheiro a música-título do álbum “Canto das três raças”, faixa que sintetizou as intenções da cantora e do produtor de fazer do canto de Clara uma tradução da amplitude musical do Brasil mestiço, Mauro Duarte – mineiro que se mudou para o Rio de Janeiro (RJ) na infância – é o único compositor do segundo hit radiofônico do disco, “Lama”.
“Lama” é samba que Duarte ofereceu a Ataulfo Alves (1909 – 1969) – por ironia o autor do primeiro samba gravado por Clara com sucesso, “Você passa eu acho graça” (1968) – e que Ataulfo recusou por temer que todo mundo pensasse que o samba de tom moralista era dele, Ataulfo, e não do então iniciante Mauro Duarte.
“Lama” é a segunda faixa do disco, que segue com um baião de sotaque interiorano, “Alvoroço no sertão” (Aldair Soares e Raimundo Evangelista, 1954), ouvido por Clara na infância vivida no interior de Minas Gerais, como conta Paulo César Pinheiro nas notas que escreveu para cada uma das dez músicas do álbum.
Acordeonista e maestro paulista, recorrente nas fichas técnicas dos álbuns de Clara orquestrados pelo maestro Gaya, Orlando Silveira fez o arranjo de base de “Alvoroço no sertão” com músicos que tocavam com Jackson do Pandeiro (1919 – 1982).
Compositor de “Juízo final” (1973), um dos grandes sucessos do álbum “Claridade” (1975), Nelson Cavaquinho aparece duplamente no repertório de “Canto das três raças”. Dele, Clara deu voz a um então inédito samba de resignação esperançosa – “Tenha paciência”, parceria de Nelson com Guilherme de Brito (1922 – 2006) – e a uma também inédita marcha-rancho, “Risos e lágrimas”, parceria do bamba com Rubem Brandão e José Ribeiro de Souza.
Entre uma e outra composição de Nelson Cavaquinho, Clara Nunes gravou valsa de Vinicius de Moraes (1913 – 1980), “Ai quem me dera”, tema embebido em lirismo melancólico lançado originalmente na trilha sonora da novela “Fogo sobre terra” (1974). O piano e o arranjo da faixa são de Francis Hime. Contudo, é o sopro da flauta de Celso Woltzenlogel que sublinha o tom tristonho da valsa, uma das poucas composições em que Vinicius de Moraes assina música e letra.
Entre o jongo e o tema de capoeira, ritmo evocado pelo berimbau percutido pelo ritmista Alfredo do Vidigal, “Fuzuê” marca o terceiro encontro de Clara Nunes com os compositores Romildo Bastos e Toninho Nascimento, dupla que já havia fornecido dois grandes sucessos para a cantora, “Conto de areia” (1974) e “Deusa dos orixás” (1975).
Na sequência do álbum “Canto das três raças”, outra dupla de compositores assume o disco após “Fuzuê”. É quando Clara abre o pano do passado com a lembrança de “Meu sofrer”, samba da dupla Bide e Marçal, formada pelos pioneiros Alcebíades Barcelos (1902 – 1975) – o Bide – e Armando Vieira Marçal (1902 – 1947). O samba “Meu sofrer” tinha sido lançado em 1948 pelo cantor Carlos Galhardo (1913 – 1985), voz da era do rádio.
Completa o repertório do álbum mais um samba, “Retrato falado”, este da parceria de Eduardo Gudin com Paulo César Pinheiro, autor da letra escrita sobre a melodia enviada por Gudin no fim de 1975.
Escorado no sucesso da música-título e de “Lama”, o álbum “Canto das três raças” vendeu bem – cerca de 300 mil cópias na época – e preparou o terreno para grandes álbuns que vieram na sequência, todos produzidos por Paulo César Pinheiro com repertórios do mesmo alto nível, com menções honrosas para “As forças da natureza” (1977), “Brasil mestiço” (1980) e “Nação” (1982), derradeiro álbum da discografia de Clara Nunes, imortal cantora do Brasil." Mauro Ferreira (g1.globo.com, 10.06.2026)


Temas

CD 1
01
Menino Deus
Mauro Duarte - Paulo César Pinheiro
02
Samba da volta
Toquinho - Vinicius de Moraes
03
Sindorerê
Candeia
04
O que é que a baiana tem?
Dorival Caymmi
05
Meu sapato já furou 
Elton Medeiros - Mauro Duarte
06
Punhal
Carlos Althier de Souza Lemos Escobar (Guinga) - Paulo César Pinheiro
07
Alvorecer
Délcio Carvalho - Ivone Lara (Dona Ivone Lara)
08
Nanaê, Nanã Naiana
Sidney da Conceição
09
Conto de areia
Romildo S. Bastos - Toninho Nascimento
10
Pau-de-arara
Guio de Morais - Luiz Gonzaga
11
Esse meu cantar
João Nogueira
12
Canto das três raças
Paulo César Pinheiro - Mauro Duarte
13
Lama
Mauro Duarte
14
Alvoroço no Sertão
Aldair Soares - Raymundo Evangelista
15
Tenha paciência
Nelson Cavaquinho - Guilherme de Brito
16
Ai quem me dera
Vinicius de Moraes
17
Risos e lágrimas
Nelson Cavaquinho - José Ribeiro - Rubens Brandão
18
Basta um dia
Chico Buarque de Hollanda (Chico Buarque)
19
Fuzuê
Romildo S. Bastos - Toninho Nascimento
20
Meu sofrer
Alcebíades Maia Barcelos (Bide) - Armando Vieira Marçal (Marçal)
21
Retrato falado
Eduardo Gudin - Paulo César Pinheiro