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Ex-tudo

Flaviola
Discos: Pop-Rock

Próximamente disponible

14,94 € impuestos inc.

Ficha técnica Discos

Sello Discobertas
Estilo Pop-Rock
Año de Edición Original 2020

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Flaviola (voz, guitarra acústica, percusión, kazoo)

D Mingus (bajo, guitarras, flauta, `percusión, kazoo, coros, sintetizadores, programaciones, producción), Júlio Ferraz (guitara acústica), Juvenil Silva (guitarra eléctrica), Daniel Liberalino (guitarra eléctrica, sintetizadores), Tiago Marditu (bateria midi), Thiago França (percusión).

Participación especial de: Theo Brasil (voz), Numa Ciro (voz).

"Segundo álbum em que o bardo Flávio de Lyra assina como Flaviola. Aqui não há Bando do Sol. Ou talvez haja: como brilhos temporãos de uma estrela distante... Iluminando multiversos presentes que transitam dentro e para além do folk pastoral.
"Nosso Syd Barret" (segundo Renato L) emerge muito mais psych entre vales sintéticos de eletri-cidades onde cabem Hellcife e Swingin London, RJ e Manchester, Berlim e SP...
Flaviola traz parceiros espirituais (Augusto dos Anjos e T.S. Elliot), dialoga com sua geração (Numa Ciro e Lula Côrtes) mas, sobretudo, encontra em D Mingus um médium e arquiteto sonoro com quem coliga esteticamente.
Desses mares pós-mangue ainda surgem nomes como os de Júlio Ferraz, Tiago Marditu, Daniel Liberalino, Juvenil Silva e o novíssimo Theo Brasil (com apenas quinze anos).
Trazendo muita história pra contar (e dançar!), Ex Tudo traz uma medicina sonora caleidoscópica e libertária para estes tempos pandêmicos, ditatoriais e distópicos em que vivemos. Evoé!"

“As pessoas falam da década de 1970 como se tivesse sido o máximo. Foi um horror”, pigarreia o cantor, compositor, poeta, diretor musical e visionário pernambucano Flavio Tadeu Rangel Lira, o Flaviola.
Quando tinha 21 anos, no Recife, o artista lançou o disco independente Flaviola e o Bando do Sol (Rosenblit, 1976). Uma obra que não aconteceu no seu tempo. Era tecnicamente malfeita, o elepê tinha encarte em papel vagabundo, a capa tinha um plástico que formava bolhas, a qualidade da gravação era ruim. Mas estava predestinado à eternidade. A música era visionária e atravessou as décadas como um cult absoluto, uma lenda do chamado “udigrudi”, da contracultura dos anos 1970, a amamentar as novas gerações.
Cheio de estranhezas e excentricidades, Flaviola e o Bando do Sol legou um único hit para seu tempo: Romance da Lua, Lua, que foi gravado por Amelinha e virou título do disco da cantora cearense em 1983.
A gênese do artista pernambucano Flaviola foi no teatro, como ator de teatro infantil, sob direção do autor e encenador Eduardo Maia (que depois virou professor e estudioso de astrologia), na confluência entre a música e sua encenação. Flaviola não era um cultor dos experimentalismos estrangeiros, foi muito mais influenciado pelo Laboratório de Sons Estranhos (LSE), uma espécie de academia de música do Recife encabeçada por Aristides Guimarães a partir de 1966 (apelidada de tropicalismo pernambucano). Flaviola não perdia uma apresentação da banda do LSE, que se apresentava naquela época no auditório do Colégio Damas Cristãs, no Recife. “O Recife é foda. Foi o show que mais me impressionou. Era uma coisa de louco, um negócio maluco”. Foi a partir dali que ele iniciou sua conversão a todas as estranhezas.
Flaviola e o Bando do Sol foi um dos primeiros discos totalmente independentes produzidos no País (um outro célebre foi Feito em Casa, do pianista Antonio Adolfo, de 1977). Foi bancado pelo pai de Flaviola, Manoel Lira. “Era desembargador aposentado, racista, preconceituoso, mas foi adorável também. Minha mãe, Maria do Carmo, tocava bandolim e piano. Ela vinha de Bonito, que também é a terra de Israel Semente, do Ave Sangria”.
O jovem Flaviola era rico, mas sua vida não era mole. O pai, para pressionar o filho, o colocou diante de uma opção cruel: ou assumia uma fazenda da família ou arcava com o peso de querer ser músico. “Não precisei optar, claro. Então, para se vingar, ele vendeu a nossa fazenda, uma imensidão de terras que ficava entre Agrestina e São Joaquim do Monte. Eu fiquei arrasado. Não queria toda a terra, era grande demais. Somente aquele pedacinho que tinha a igreja, a casa, o curral e o rio, que eu amava. Fiquei tão abalado que comecei a me drogar profundamente para fugir daquela pressão. Eu odiei a minha família”.
As drogas eram de todo tipo: optalidon, glucoenergan, cocaína, LSD. “A maconha dessa época era maravilhosa, não era essa porcaria de hoje. Mas nada me satisfazia. Heroína, só fui experimentar muitos anos depois, mas tive suores frios, não foi uma boa experiência. Quando a grana acabou, a crise de abstinência foi terrível”.
Flaviola faz um parêntese. “Nós éramos isso na vida, não éramos uma turma de loucos que viviam drogados. Para a gente, aquilo era um evento, tratava-se de abrir as portas da percepção, como no caso dos Doors. Abrir a cabeça. Não era como hoje em dia, essa coisa baixa, chula. Buscávamos por visões, imagens. Não havia corrupção, mau caratismo. Eu não tinha maldade, só vim a adquirir a maldade muito tempo depois”, afirma.
Como o pai fosse juiz, a família vivia em muitos lugares, de Alagoa Grande a Campina Grande. Rodavam províncias e capitais, foi assim que ele cresceu.
Mas, àquela altura, de volta ao Recife, a família fora viver no bairro das Graças, na mesma rua em que morava o escritor Jomard Muniz de Brito (vizinho da casa da frente). A curiosidade intelectual do jovem aumentou. O pai arrumou um professor de violão para lhe dar aulas, mas o professor só deu a primeira aula, ensinou três acordes e sumiu.
“Eu nasci numa família racista e homofóbica, e era glam antes de alguém ouvir falar nessa palavra, muito antes de David Bowie. Eu era hippie, mas não era fedido, era perfumado”.
Flaviola acabou se virando sozinho, aprendeu a tocar violão sozinho. Mais tarde, conheceu Robertinho do Recife e passou a frequentar o núcleo musical que reunia artistas como o Tamarineira Village (depois, Ave Sangria), Tiago Araripe, entre outros.
“Eu era ‘frango’. Na época, não se dizia viado. Os meus colegas diziam que eu não dava certo no mundo artístico porque era viado, ‘filhinha de papai’. Fui tratado com muito preconceito não só pela família, mas pelo próprio mundo artístico. Eu me lembro perfeitamente quem foi, lembro de todos eles. Quem me adotou foi Robertinho do Recife. Ele me escalou para a banda da montagem Arame Farpado no Continente Perdido”.
Mas aí Robertinho teve que ir para os Estados Unidos para tocar em um cruzeiro e, no lugar dele na banda Arame Farpado entrou o guitarrista Nelo, outra figura mítica da cena. E também um rapaz chamado Di Melo, músico que seria redescoberto somente muitos anos depois. “Na época, Di Melo era guardador de carros na frente do Teatro Popular. A gente o chamava de Boby d’Melo. Ele foi um anjo da guarda que eu tive, vinha da rua, me protegia. Era uma puta banda. O nome do espetáculo vinha de uma canção em inglês que eu tinha, In the Lost Continent.” Foi então que o Robertinho voltou dos Estados Unidos e eles, Robertinho e Flaviola, voltaram a ensaiar juntos. Após dois dias de ensaios, fizeram um show no festival Fescim, ao ar livre, que Flaviola lembra como um marco na História da música do Recife. “Mas só nós lembramos, porque não ficou nenhum registro disso”. Depois, o grupo se desfez.
Aos poucos, Flaviola sedimentou seu conceito artístico, que envolvia um grande cuidado com a performance (tinha figurinista exclusivo e maquiador em sua trupe) e passou a fazer shows. Uma de suas primeiras grandes excursões foi a Natal (RN). “Fui para ficar três dias, fiquei três meses, na esbórnia”, ele conta. Na época, a chamada “alta sociedade” tinha por hábito comprar estreias de espetáculos, pagar antecipadamente, eliminando o risco do êxito ou do fracasso. Flaviola vivia sua euforia particular.
“Recife era provinciana, claro. Mas a gente inventava coisas. Ninguém pensava em ser psicodélico, em ser underground. Eu adorava The Who, era apaixonado pelos mods, mas não tive influência de nada disso. A gente ouvia compactos, quatro ou cinco compactos por semana. Quem levava os discos era o Arto Lindsay, de família americana, o único que tinha essa possibilidade. A gente se reunia para ouvir os discos dele. Eu me informava não sei bem de que jeito, mas sempre gostei da novidade, sou um curioso profissional. Dos estrangeiros, posso dizer que Donovan (músico folk escocês) foi meu maior influenciador”.
“Usaram a palavra udigrudi para definir o som que fazíamos. É errada essa palavra. Deve ter sido o Lula Côrtes que usou com a imprensa, ele adorava essa palavra e ela acabou consagrada. Mas é uma bobagem, não define nada”, ponderou.
Sua presença na cena da música do Nordeste da época estava se consolidando. Com Fagner, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Robertinho do Recife, Ricardo Bezerra e Ave Sangria, Flaviola fez o show Os 7 Cantos do Norte (produzido por Tiago Amorim em 1974). Cada um dos sete cantava uma parte e chamava o outro, fazia uma introdução para o artista seguinte. “Na sua vez, Fagner não chamou Alceu Valença e deu o maior rebu”. Foi na Igreja do Carmo, em Olinda, que tinha uma acústica péssima. Gravado em fita, o show está sendo recuperado pelo pesquisador carioca Marcelo Fróes. “Tem uns problemas: como não havia espaço suficiente para gravar todos os shows, o técnico compactou as coisas, acelerou o andamento”, conta.
Então, ele decidiu sair do Recife para ir para o Rio de Janeiro. O parceiro Lula (Côrtes) não encarou bem a decisão, “ficou puto, com ódio mesmo”. Flaviola foi com seu álbum debaixo do braço para se aventurar. “Eu fui para o Rio com as piores cópias do disco, que já era malfeito. Acontece que eu tinha feito um seguro da carga de discos e ela se extraviou, então eu recebi pelos discos sem que tivesse vendido nenhum”, diverte-se relembrando.
Em 1979, participou da série Asas da América, um projeto de revisão do frevo com diversos intérpretes que rendeu 6 volumes até 1993. Organizado pelo compositor pernambucano Carlos Fernando, reuniu Alceu Valença, Caetano Veloso, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Chico Buarque, As Sereias, Marco Polo. Flaviola cantou Aquela Rosa, de Geraldo Azevedo e Carlos Fernando, no primeiro volume.
A partir do final dos anos 1970, no Rio de Janeiro, passou a fazer trilhas para peças de teatro, além de composições para outros artistas. Ele e o carnavalesco Fernando Pinto compuseram O Que Não Mata Engorda, para as Frenéticas. Também fez a direção musical do espetáculo Os Anéis de Saturno, no Teatro Thereza Rachel.
Em 1977, Flaviola desembarcou em São Paulo, onde conheceu o diretor Jorge Takla e o artista plástico José Roberto Aguilar, juntando-se à trupe deles. Eles montaram uma ópera multimídia, que participou da 14ª Bienal Internacional de São Paulo, a instalação Circo Antropofágico Ambulante Cósmico e Latino-Americano Apresenta Esta Noite: A Transformação Permanente do Tabu em Totem. Tentaram montar na antiga lona do Anhembi, mas não foi aprovado porque diziam que iria descaracterizar o local. Tentaram instalar no Masp, também não deixaram. Acabaram indo para o Teatro Ruth Escobar. “Era um trabalho inclassificável, havia 12 monitores de TV no palco, misturava dança, teatro, videoarte. Ganhou o Prêmio Governador do Estado, mas a crítica foi implacável. “Telmo Martino e Sábato Magaldi destruíram o espetáculo, salvando apenas a minha participação. Acho que o Takla ficou um pouco enciumado disso. Eu morava na frente do bar Persona e dormia o dia todo. De noite, cantava no Persona da meia-noite às 6 horas da manhã”.
Flaviola desenvolveu muitas parcerias nesse período. Zé Ramalho se tornou um grande parceiro do pernambucano. “Fizemos uma canção que virou nome de um disco dele, Décimas de um cantador (Zé Ramalho/Flavio Tadeu Rangel Lira), compusemos Martelo dos 30 Anos, Quasar do Sertão”.
Recentemente, após um show de “comeback” no Abril Pro Rock, no Recife, em 2015, após 25 anos sem ir ao Recife, Flaviola descobriu a efervescente cena da música atual de sua terra, a mesma que o projetou há 46 anos. Ficou ensandecido com o que ouviu.
“Conheci o som do D’Mingus, o Domingos Porto, e fiquei louco pelos discos dele. Cheguei para ele e disse: ‘Quero fazer um disco novo’. Ele foi me ver no camarim do show do Abril Pro Rock, eu estava bêbado. Veja: eu não faço show bêbado. Jamais. Mas depois é arbítrio meu. Ele estava com uma menina, uma garota de 13 anos, com o disco Flaviola e o Bando do Sol debaixo do braço. Ela era minha fã, tinha 13 anos. Eu fiquei pasmo. D’Mingus, na hora, amarelou (em relação à proposta de fazer um disco juntos). Mas aí eu disse pra ele: ‘Eu não quero um Flaviola e o Bando do Sol 2. Quero fazer algo totalmente diferente’. E ele embarcou”.
“Encontrei no Recife muitos cantores, autores, compositores, cantautores. É um movimento forte, fiquei fascinado com os discos que me deram. Até fiquei preocupado em como levar para o Rio, ia dar excesso de bagagem. Saímos para beber juntos: Graxa, Ex-Exus, Verdes & Valterianos, Juvenil Silva. Fabulosos”. Sua decisão, ao constatar a efervescência da nova geração, estava tomada: era chegada a hora de voltar ao começo.
O novo e inédito disco que marca a ressurreição de Flaviola aos 67 anos, Ex-Tudo, é formado por algumas canções que já foram compostas há muito tempo. A produção é de Marcelo Fróes. Há uma música de 1972, que ele apresentou no Parto de Música Livre do Teatro Santa Isabel. “Foi um festival em que tinha até o Luiz Gonzaga, e eu barbarizei. Eu era assim: ia com duas ideias na cabeça, uma careta e uma doida. Na hora eu decidia qual seria”. A canção (Não vá embora) falava da pensão TB, em Recife, a única que aceitava casais homossexuais na época. “Eu fui muito aplaudido até certa altura, mas aí eu resolvi repetir o refrão indefinidamente. Começou a ficar aquele silêncio. Eu dizia: ‘Vai comer ou quer que embrulhe?’. Na época, eu fumava aqueles cigarros indianos, de cheiro, e dei um para o Marco Polo (cantor do Ave Sangria). Ele subiu ao palco fumando e os espectadores pediam para dar um tapa. ‘É palha’, dizia o Marco Polo. A polícia veio e perguntou onde ele tinha achado o cigarro, eu acabei tendo que me explicar na polícia”.
A circunstância de gravação do trabalho inédito é sombria, não tem nada de luminosa. Ao voltar ao Rio da viagem ao Abril Pro Rock de 2015, Flaviola caiu doente de uma doença estranha. “Eu fiquei parecendo um boneco de massa de modelar, inchado, fofo. Fiz todos os exames, não veio uma luz para o que eu tinha. Ninguém sabia dizer”, conta. Convenceu-se de que morreria e resolveu então voltar ao Recife para gravar aquele que seria seu disco de despedida. Começou a gravar. “A voz estava boa, mas eu não estava. Eu dormia na frente do D’Mingus, do nada”. Estava hospedado em Aldeia, que é um bairro longe, numa propriedade rural. Com diabetes, começou a piorar. Os sapatos apertavam os pés, não tinha como calçá-los. Passou a andar descalço e os pés criaram feridas. Fez calos de sangue nos dedões. Levado ao Hospital Português, amputaram um dedo do pé. O excesso de peso tinha forçado o coração. “Meu coração era um fiapo”, conta. Levaram-no para a UTI e tiveram que amarrá-lo à cama, porque desesperava-se com a ideia de que era o último contato com o mundo. Ficou 15 dias em coma induzido. Teve que fazer traqueostomia. Mas, milagrosamente, foi se recuperando, voltou para a casa em Aldeia e ficou bom. “Hoje, canto melhor que antes”, diz. Gravou o disco todo, refez todos os vocais que tinha gravado anteriormente. No sítio de Aldeia, até os grilos entram na gravação. “É um panorama da minha vida, um caleidoscópio”, anuncia.
“As pessoas achavam que eu tinha sumido, que eu tinha morrido”, diz Flaviola, novamente insolente e eufórico.
“Agora, eu sou de novo Flaviola. Flavio de Lira já morreu. Vão surgir analogias, mas é evidente que a pessoa é a mesma pessoa. É só que esse disco (Ex-Tudo) é um divisor de águas, e ele vai mostrar que eu não parei no tempo. É aquela mesma sonoridade estranha, mas está afinada com o que está acontecendo hoje. Eu sou ligado no novo. Nunca quis voltar ao passado”." Jotabê Medeiros (Farofafá, 10.02.2020)

Temas

CD 1
01
A ideia
Flaviola (Flávio Lira) - Augusto dos Anjos
02
Bambu
Flaviola (Flávio Lira) - T.S.Elliot (Trad. José Paulo Paes)
03
No centro d'ação
Flaviola (Flávio Lira)
04
Sem tema
Flaviola (Flávio Lira) - Lula Côrtes
05
Poder e saber
Flaviola (Flávio Lira)
Flaviola & Theo Brasil
06
Crânios
Flaviola (Flávio Lira) - Lula Côrtes
07
Pra não desesperar
D Mingus
08
Recife submerso
D Mingus - Flaviola (Flávio Lira)
09
Setembrina
D Mingus - Flaviola (Flávio Lira)
10
Mata Hari
Flaviola (Flávio Lira)
Numa Ciro
11
O Bando do Sol
Flaviola (Flávio Lira)
12
Nunca vá embora
Flaviola (Flávio Lira)
13
A ideia (Versão Single)
Flaviola (Flávio Lira) - Augusto dos Anjos